Livro

ATENÇÂO: ESSA HISTÓRIA NÃO É BASEADA EM FATOS REAIS. QUALQUER SEMELHANÇA COM A SUA REALIDADE É MERA COINCIDENCIA. TER NOME E/OU IMAGEM PUBLICADAS NESTE RELATO NÃO INDICA NECESSARIAMENTE ORIENTAÇÃO SEXUAL.


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ESSA COISA CHAMADA VOCÊ

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Capitulo 1.

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…O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer…”

MONTE CASTELO
Letra: Renato Russo
Música: Renato Russo
Inc. Adapt. "I Coríntios 13" e "Soneto 11" de Luís de Camões

Meu nome é Bruno, o que mais precisam saber? Coisas sobre minha família? De onde venho? Nada disso importa. Não quando se cruza um oceano onde cortam-se as amarras em busca da beleza, de algo mais excitante, e devo admitir, mais perigoso.

Eu não me lembro exatamente quando comecei a me sentir dessa maneira, mas algo dentro de mim me diz que sempre fui assim, lembro como esses sentimentos me assustavam às vezes.

Então, após 16 anos de uma vida, eu me vi na hora de começar a viver.

Comecei como apenas um turista nesse mundo, procurando por algo sempre seguro, como costumava ser minha vida. Mas eu nunca resisti ao desconhecido, sempre me manti receptivo as coisas, absorvendo experiências, nunca deixando de ser educado, e jamais ficando mais que o desejado. Deve ter valido a pena.

Valeu, pois sei hoje que antes de você mergulhar de cabeça em algo assim, você deve se perguntar qual o seu objetivo. E quando tiver que agüentar tudo sozinho acostume-se, porque é assim que parece ser no começo. Pelo menos foi pra mim até agora. Aliás, foi o motivo de tudo, eu estava me sentindo muito sozinho.

Eu já tive assim, relacionamento sério com duas meninas, ficava com outras quando pintava, mas não ia atrás, só duas que contaram mesmo, foi durante o segundo colegial, tive também uma namoradinha na oitava série, mas essa nem vale contar, não passávamos dos selinhos. Já a Ana eu conheci no carnaval do Clube, o São Paulo F. C., tava passando pela pista com amigos do condomínio, ela me chamou de uma maneira curiosa, veio dizendo “Todos os meninos que passaram por mim hoje, quiseram me dar um beijo, me encheram o saco!!! e quando passa um que me interessa, passa batido!!!” Acho que ela já estava meio alegrinha com as batidas,hehhe fiquei sem ação, todos meus amigos me olharam, me cobrando uma reação à altura, num falei nada, beijei ela. Ela tava com um gosto de frutas na boca, e beijava estranho, melava toda minha boca, com movimentos circulares com a língua, lembro direitinho, ela era um pouco mais baixa que eu, quase da minha altura, por volta de 1.73 acho, tinha cabelos pretos bem soltinhos, olhos castanhos, um rosto de patizinha, bonitinha, magrinha, branquinha, um jeitinho meigo, mas ao mesmo tempo forte de ser, ela dominava a situação. Naquele dia meus pais estavam por lá também, num camarote, a levei pra lá, e fiquei bem na frente deles, sentado na escada da arquibancada do ginásio onde ficavam as divisões. Lembro de uma mulher que passou e falou “Ai!! essa pegação aqui num fica bem!!!”hehe. A Ana morava na Raposo Tavares, num condomínio no km 16, eu na época estava morando em Caieiras, ficamos juntos por volta de 4 meses, saindo todos os finais de semana, lembro hoje que eu nunca ligava pra ela!! Se liguei foi uma vez ou outra, ela que sempre me procurava, não fizemos nada, não transamos, só amassos, cinema, balada, aparências, eu gostava de desfilar com ela, e ela comigo, até que ela percebeu que eu não corria atraz, terminou comigo por e-mail, foi patético, ela foi direto ao ponto como sempre, escrevendo logo que não éramos mais namorados, que eu não gostava dela e ela não iria mais ligar, que se quisesse algo, pra eu correr atrás. Ela podia pelo menos ter falado isso pelo telefone!! Não preciso nem contar que não telefonei, só escrevi dizendo que pensava assim também, e que podíamos ser amigos. Falei com ela às vezes por MSN, depois perdi contato, nunca mais a vi, nem falei por telefone. Acho que só fiquei com ela 4 meses porque ela me fazia sentir querido, ela tinha tesão por mim, eu gostava disso. Mas não sentia nada por ela, alem de consideração.

Nisso, já era o começo de Junho, o colégio que eu estudava não ia muito bem, se chamava Fernando Pessoa, era um colégio bem diferente, humanista, e totalmente liberal, pra você ter uma idéia, tinha um professor de redação, o Sandro, esse tinha cabelo super comprido, agente chamava ele de Elba, por causa do cabelo da Elba Ramalho que era igual ao dele!! Depois mais pra frente, cortou curtinho e pintou de azul, uma figuraça. Agente se fava super bem, eu sempre curti escrever. Uns amigos e eu fundamos lá a Tv interna do Pessoa, um colegão meu tinha ilha de edição, uma câmera da hora, agente se divertia junto com a escola inteira, que ficava ansiosa pra assistir nossas matérias, e essas ficavam muito boas sem querer ser modesto!! heheh. Com qualidade de imagem, som, e conteúdo!! Engraçado, lembro que sempre tive muitos colegas na escola, conversava com todos não me prendendo muito a grupinhos, eu era bem descolado, me dava com todo mundo e até que era bem requisitado, mas não tinha um amigo, ninguém que eu pudesse contar numa hora de desespero, tinha o Giulliano, mas não podia me abrir com ele, era complicado, lembro de sempre me sentir sozinho, mesmo quando cercado de gente. Eu era diferente por dentro.

“…You feel all alone in a faceless crowd
Isn’t it strange how we all get a little bit weird sometimes.
Sitting on the side. Waiting for a sign. Hoping that my luck will change.
Reaching for a hand that can understand, someone who feels the same.
When you live in a cookie cutter world being different is a sin.
So you don’t stand out. And you don’t fit in.
Weird…”

Weird
Hanson

Éramos uma família lá, todos muito unidos, crescemos juntos como uma turma, eu estava lá desde a sexta série, vivi momentos muito legais!! Todos iam muito em casa, eu na casa deles, eles curtiam minha mãe pra caramba, às vezes eu tinha que expulsar ela do meu quarto, se não meus amigos ficavam conversando com ela e agente não fazia trabalho. Ela deu uma palestra uma vez na escola, todos lembravam dela, depois disso virei o filho da delegada, ela criou uma puta polemica sobre pena de morte e violência policial. O povo do colégio era meio “rippie”, e matar!! Nossa, era uma palavra que não existia… hehehe Minha mãe chegou lá falando “Galera, com um distintivo de delegada federal no bolso eu não tenho o direito de ser assaltada !! Se o filha da puta vê, é tiro na minha testa, ele sabe que se me deixar sair viva, morre depois, eu mesmo faria questão de garantir isso!! Ninguém assalta delegado, é uma questão de princípios”… HEHEHE. Meus amigos curtiram pra caramba o jeito de macha dela, com cabelo curtinho avermelhado, lá botando moral nos moleques que tavam zoando enquanto ela falava, muito comédia!! Os professores ficaram meio assustados, ela fala tudo que da na telha, e se precisar ser estúpida, é com ela mesmo, chocando mó galera!! Ela é super excêntrica mesmo, imprevisível!! Teve uma vez que agente tava jogando bola na quadra, minha Mãe apareceu pra me buscar, a bola caiu perto dela, meus amigos começaram a gritar: “Chuta Tia!! Chuta!!”, meu, até eu assustei!! Minha mãe deu uma puta bica na bola que caiu certinho na quadra!! E olha que ela tava lá em cima!! Mó longe!! Caguei de rir com a reação dos meus amigos!! Eles pararam meio que com a boca aberta, olharam pra mim, e falaram: “Bruninho, sai da quadra!!, chama lá sua mãe que ela vai entrar no seu lugar!” HAHAHA… Eu lembro desses momentos… E sabe? Era muito legal… Eu ainda não tinha conhecido nenhum menino, sei lá, pensava nisso, mas não como algo possível, acho que emocionalmente faltava algo, mas eu não pensava muito sobre isso… Ali apenas se ficava, era a época, namorar nem pensar, eu fiquei com varias meninas lá, era bem galinha e nunca tinha vergonha de levar fora, de chegar nas meninas, se eu via que ela era bonita e os outros meninos olhavam e elogiavam, chegava junto, conversava numa boa, se rolar, rolou. Levei alguns foras sim, mas na maioria das vezes acabava beijando!! Hehe… Minhas preocupações se resumiam à prova bimestral, festas dos finais de semana e quando minha mãe me emprestaria um carro!! Mas nem curtia muiiiito ficar com meninas, meu sonho na época era beijar o Giulliano, tudo que eu queria. O tempo foi passando, eu nunca fui muito de estudar, mas sempre passava de ano. Passei direto da sexta até a oitava, mas no final da oitava, eu devia ter uns 13 pra 14 anos, o dono de Fernando Pessoa, não soube administrar direito o colégio, e esse foi vendido para um Grupo de mulheres que eram donas de colégios na Argentina, e no Brasil da Escola da Vila, o local do meu colégio era muito lindo!! Super arborizado sentia-se muito bem lá, um ambiente muito agradável pra se estudar, o que chamou atenção do Grupo que vieram com uma filosofia totalmente diferente, colocando novos professores, foi então que comecei a me desinteressar por estudos por completo, quase repeti o primeiro, peguei varias recuperações, e passei raspando de conselho, devido ao meu histórico que era legal. O colégio tava mudando muito, tinha um professor, o Juba, que era casado com a Diretora da escola, ele era muito mais jovem que ela, ele tinha uns 35 e ela uns 65, era pai do primeiro casamento, de um colega meu, EDU, o galã da escola, capitão do time de futebol, aquele que todos pagavam pau, até que ele era bem gato, gostosão, mas nem fazia meu tipo, sei lá, nunca me senti atraído por ele. Como dizia, o pai dele era muito folgado, inteligente, muito rápido no raciocínio, professor de Física, matemática, sempre tava querendo ensinar algo pra vida em cada aula, era músico também, às vezes cantava pra gente. Nunca me esqueci, ele era uma espécie de paisão pra mim, sempre me aconselhando na ausência do meu, que viajava muito. Mas acabou comprando briga feia com as novas donas, porque tiraram o espaço que os professores tinham antes, de programação e tal, foi foda, na festa do final do ano do primeiro colegial, ele subiu no palco e cantou a música “Nois não vamo paga nada” do Raul Seixas, terminou falando que o novo nome da música era “Só Pessoa” em alogia ao novo nome do colégio “Vila Pessoa”. Não preciso dizer que ele foi mandado embora no dia seguinte. Era o começo do fim, depois dele vários acabaram saindo por conta própria e uns poucos professores legais sobraram, muitos dos alunos também não puderam arcar com a nova mensalidade da escola. Assim, derrepente, a escola que eu adorava já era. Por isso no segundo eu desencanei de vez; cabulei varias aulas, não fazia nada.!! Só zoava, comecei a fumar cigarros também. No final veio a surpresa, repeti direto de ano! DIRETO. Muitos dos meus amigos tentaram me avisar, mas eu não tava nem ai, hoje nem me arrependo, ao mesmo tempo nem sei se poderia ser diferente mesmo, acho que foi pra ser assim, porque se não tivesse repetido, nem estaria escrevendo agora. Mas meu medo maior, era de sair de lá, como seria não ver mais o Giulliano todos os dias, me dava meio que um desespero só de pensar em não ter mais aqueles olhos azuis, aquela boca, o cabelinho loirinho, narizinho perfeito, ele era tudo que eu queria ser, e ao mesmo tempo ter! Tinha acontecido muita coisa entre nós naquele ano, eu tinha me apaixonado por ele, e ao mesmo tempo se tornado seu melhor amigo, vivíamos grudados, viajávamos juntos, saiamos na balada, eu às vezes não conseguia parar de olhar ele, mas algo acontecia comigo, eu esquecia o rosto dele, não conseguia formar a imagem dele com perfeição na minha cabeça, era estranho e assustador, lembro de me trancar no quarto e ouvir a mesma musica varias vezes, com o cheiro do perfume dele na minha mão ficava imaginando como seria beijá-lo, ficava com um frio na barriga às vezes só de pensar. Uma vez tive um sonho, foi o melhor sonho que já tive na minha vida!!! Era de tarde e acabei cochilando no sofá da sala, logo após andar com os cachorros, lembro direitinho, eu estava num campo, forrado com uma grama bem verde, um céu super azul, com aquele sol, mas sem a sensação de estar calor, estava ventando, e cresciam no campo, papoulas coloridas e girassóis bem amarelos praticamente da minha altura, eu estava andando no meio disso quando derrepente o Giulliano surgiu do nada na minha frente, sorrindo, sempre quando ele sorria, me quebrava por dentro, pois não podia abraçá-lo…na hora nem pensei, agarrei ele, fechei os olhos e beijei, pude sentir ele me beijando de volta, a língua dele tocando a minha levemente, num beijo muito gostoso, foi como ir pro céu e voltar, num beijo.

“…Oh, my life,
Is changing every day,
In every possible way.
I know I’ve felt like this before, but now I’m feeling it even more,
Because it came from you.
And then I open up and see the person falling here is me,
A different way to be…
….And oh, my dreams,
It’s never quiet as it seems,
‘Cause you’re a dream to me,
Dream to me…”

Dreams
The Cramberries

Acordei antes dele terminar, o sol estava batendo no meu rosto, olhei pela janela, o céu estava da cor que estava no meu sonho, azul, lembrei dos olhos dele, por um instante acreditei ter estado lá mesmo, mas era um sonho, quase chorei, meu peito ficou apertado, fiquei com uma sensação de ter perdido algo muito importante, queria nunca ter acordado desse sonho. Nunca ter acordado…

“…You grieve you learn
You choke you learn
You laugh you learn
You choose you learn
You pray you learn
You ask you learn

You live you learn

Ohohohohohohoh…”

You Learn (Live)
Alanis Morissette 

Confesso que foi horrível repetir o ano. Incrível, mas ninguém esperava que eu repetisse direto, foi um choque! Eu nem quis falar com ninguém, fiquei lá, queria estar sozinho, só isso. Não conseguia parar de pensar que ficaria muito mais difícil agora, sem poder vê-lo sempre, pois não pretendia voltar a estudar lá, e assim foi, por mais que meus pais quisessem que eu refizesse o segundo lá novamente, fiquei tão puto, que resolvi desistir de tudo. Ameaçaram-me até de me colocar numa escola pública, aceitei, mas na ultima hora, eles viram que eu ia mesmo e deram pra traz me colocando no Saint Paul’s, era esse ou Santo Américo, não suporto aquele colégio, então fiquei com a segunda opção.

Muitas coisas mudaram na minha vida depois disso. Minha mãe estava com problemas de segurança no trabalho e comprou um apartamento no Morumbi, onde ficaríamos eu e meus irmãos, meus pais continuariam na casa em Nova Caieiras para não ter que se desfazer dela, segundo eles. No fundo queriam que morássemos separados, minha mãe não queria estabelecer vínculos familiares com ninguém, pois o cargo dela passou a exigir isso, ninguém podia saber que ela tinha filhos, pois isso nos colocava em risco, um pouco de exagero é claro, mas aconteceu assim, nós éramos crescidinhos, minha irmã tinha 19, meu irmão 22, ambos na USP já, Geografia e Jornalismo, ficou mais perto pra eles, também adoramos a idéia de ter um apartamento só para nós!! Mas tudo acabou mudando, eu mudei. Só sei que comecei a perder contado com todos meus amigos, no Saint Paul’s não conhecia ninguém, era todo mundo muito fresco, outro nível de pensamento, davam muita importância pra o que se tinha ou aparentava ter, sempre fui super desencanado em relação a isso, sentava no fundo da classe, ficava na minha, fui me inturmando aos poucos, até que um dia o palhaço do meu pai apareceu pra me buscar na escola, era uma Sexta, tinha atividade extracurricular obrigatória, então eu saia às 17h, ele aproveitou que tinha saído do escritório mais cedo pra dar seu showzinho particular na frente da minha escola.

Chegou escoltado por quatro das viaturas de equipe de segurança da empresa e ainda desceu do carro, os seguranças meio que cercaram ele sem contar que fecharam a rua com as viaturas, vieram em minha direção, me pegaram dentro da escola, nunca passei tanta vergonha na minha vida!! Todo mundo olhando. Mas engraçado foi que no dia seguinte todo mundo me olhava na escola, foi então que sei lá, uma menina começou a conversar comigo, conversa vai, conversa vem, fiquei com ela, era bonita e legal, mas um pouco burra, agente ia ao cinema e ela não captava nada dos filmes, tinha que ser tudo pré-mastigado pra ela entender!!.Ela também se importava demais com coisas materiais, tava comigo meio que pra desfilar pra escola, como a Ana, mas só que mais na cara, quando me toquei que eu também tava ficando assim!! Cai fora. Mas no tempo que fiquei com ela, fiz amizade com muita gente, ela era bem conhecida na escola, até ai nunca tinha tido nada com meninos, mas já sabia que gostava, mas ninguém em especial me chamou a atenção no Saint Paul’s. As férias chegaram, eu meus irmãos e meus pais fomos viajar, meus pais tavam com planos de se mudarem novamente, mas só eles, ficaríamos se quiséssemos, se algo acontecesse estávamos mais independentes deles, pelo menos no aspecto psicológico, mas no financeiro, não tinha como!! Foi muito gostoso lá, meu irmão é muito zoeiro, foi da hora….

Quando voltamos das Férias, entrou uma menina nova na classe, o nome dela era Juliana, ela era linda, parecia a Sandra Bullock e se interessava muito pelos mesmos assuntos que eu!! Trocamos varias idéias, chamei ela pra ir ao cinema um dia, logo no começo mesmo, e enquanto agente esperava a sessão começar, sentados numa das mesinhas, no Iguatemi, fumando, nos beijamos, ela beijava muito gostoso, confesso que fiquei excitado pela primeira vez dessa forma!!! Isso me chamou atenção, cheguei a gostar muito dela, mas ela era bem insegura, complicada, tava sempre me testando, odiava isso, sempre gostei de estar no controle da situação e com ela nem funcionava assim, tivemos umas brigas de cinema na escola!! Hoje eu lembro e me da vontade de rir. Ficamos bem famosos por lá, todo mundo falava que éramos um casal perfeito, realmente tínhamos tudo haver mesmo em certos pontos, fiquei com ela bastante tempo, mas a vontade começou a bater, faltava algo, eu sempre via sites de meninos pelados na Internet e imaginava se existiam mesmo. Queria achar um daqueles, pra poder beijar e telo só pra mim, queria um menino como qualquer outro da minha idade, gato, gostoso, que não tivesse aquele jeito meio afeminado, acho que queria alguém como eu, e que se sentisse exatamente como eu.

“…The only difference
That I see
Is you are exactly the same
As you used to be…”

  The Difference
Wallflowers
 Cd:Bringing Down the Horse (1996)

Descobri que existiam salas de bate papo na Internet para gays e afins, como a da UOL, eu não me considerava gay, mas se quisesse falar com alguém, teria que ser por lá, eu não tinha nem idéia de onde procurar também, mas se eu estava entrando lá, pela lógica, imaginava que outro menino na mesma situação que eu também teria que existir pra eu conversar. Conversa vai, conversa vem, eu estava desesperado para ter um contato real com tudo isso, acabei marcando um encontro com um menino de 22 anos, ele era japonês, modelo, veio me pegar na esquina do apartamento, umas 22h, marquei assim, do nada, resolvi e fui. Demos uma volta, ele tinha um corpo legal, confesso que fiquei com vontade de transar com ele, mas não era isso que procurava pra mim, não fiz nada, apenas conversamos, ele me deixou em casa, nunca mais respondi os e-mails dele. Conheci vários depois dele, entre 15 e 22 anos, conheci até um de 58!! heheh diretor de televisão, famoso, muito gente fina, ele ainda deixou eu dar um role no Mustang dele, mas nem pensar em rolar algo!! Muitos dos que conheci são meus amigos até hoje, outros sumiram, ou eu que sumi.

“…You always said that you needed some
But you always had more, more than anyone…”

The Difference
Wallflowers
Cd:Bringing Down the Horse (1996)

Eu até hoje não sei direito como definir ou o que esperar desse mundo, só sei que quando tive meu primeiro contato, não era nada do que eu esperava encontrar, todos parecem viver uma vida paralela, como turistas, mas não apenas de passagem, realmente vivendo assim. Descobri que ninguém tinha sido convidado a estar lá, ninguém era feliz assim, apenas aparentavam ser se escondendo em boates escuras onde suas faces não podiam ser reconhecidas, pareciam ter vergonha. Eu não era assim, não sou assim, só conseguia ver uma coisa em comum entre eles e eu, o desejo, desejo é desejo onde quer que se esteja, nunca muda.

Nenhum menino que eu conhecia na Internet parecia me atrair o suficiente para ir mais alem, mas sempre na rua, no ônibus, no clube, via muitos, chegava a me apaixonar por um instante, trocar olhares, mas não tinha como dizer isso, era como olhar para um menino e pensar: “é este!”, até ele tomar uma direção diferente da sua alguns instantes depois, e nunca mais cruzá-lo, talvez este nem notou que você existe, mas você talvez lembre dele pro resto da sua vida, sem trocar uma palavra se quer , ele se torna perfeito para você.

Continuei assim, até que em Novembro teclei com um menino da minha idade, 16, liguei pra ele, tinha uma voz legal, não era afeminado, ficamos muito tempo no telefone, marquei com ele de encontrá-lo no dia seguinte pela manhã, era um Sábado, lembro que eu peguei um carro escondido, a Suprema, puta banheira que o Jorge, o motorista usava na época. Fui pegar o menino na Paulista, em frente a FIESP, lembro que subi na calçada, que é rebaixada lá, desci do carro de óculos escuros, ele me viu, perguntou se eu era o Renato, nem tinha dado meu nome verdadeiro, ele era bonitinho, entrou no carro, tava de calça big, usava uns anéis nos dedos, um jeito de moleque, cabelo muito bonito repartido no meio, corpinho da hora. Fomos no Shopping Morumbi, era umas 10h da manhã nem tinha ninguém, conversamos sobre nossas famílias, eu não via a hora de beijar a boca dele, ele tinha a boca fina como a do Giulliano, voltamos pro carro, parei numa rua calma, fui logo lançando: “E ai!! Não vai rolar nem um beijinho??” hehehe ele assustou, eu também tava apavorado!! Ele respondeu eufórico: “Claro!!” me beijou. Não gostei nem um pouco, achei nojento e estranho beijar um menino, eu não tava preparado acho, mas nos vimos algumas vezes ainda, fiquei puta confuso!! Não sabia o que queria, ao mesmo tempo em que não queria beijá-lo, queria abraçá-lo ou ter-lo a meu lado, não pensava em sexo!! Foi me dando um medo muito grande de alguém descobrir que eu estava tendo um caso com um menino, e isso me fez acabar tudo do nada, desaparecer, sumir… Às vezes me arrependo dessa época, da decisão que tomei, mas ao mesmo tempo não queria poder voltar no tempo pra ter uma segunda chance, pois ainda estaria em duvida.

Eu e a Juliana nos encontramos depois, ficamos mais vários meses juntos, acho que até Junho do ano seguinte, mas eu não conseguia mais ficar com ela, eu adorava ela, o jeito dela, mas ela não me dava tesão algum, sei lá, chegou um ponto que beijá-la era como beijar papelão. Comecei a evitá-la e ela percebeu, em Julho foi viajar novamente, não sabia se ia voltar ou terminar os estudos por lá, foi difícil, era chorou, ela terminou comigo, assim do nada, me pegou de surpresa, chegou no ultimo dia de aula dizendo que tinha me escrito algo, me deu um envelope, me beijou, e sumiu… No envelope tinha uma carta com uma correntinha que ela usava no pescoço, usei-a por muitos anos, hoje deve estar guardada em alguma gaveta que ninguém nunca mexe… Ela escreveu em Inglês, lembro que sempre dizia que o Inglês era mais sonoro e na minha escola também só se falava em Inglês, era praticamente obrigado, concordo que soava melhor. Enquanto eu lia essa carta, quase parei de ler para correr atrás dela:

” Firstly I’d like to say, that from the short cute of time that I know you, you were one of the coullest people that I ever been with, maybe the only one.

You are the little guy that lot’s of girls would like to have. I don’t know for sure, but after all of this, I really don’t think that I can define you as you are, and I do think there are a fell things I’d like you to know before I go, or you stay.

There are always someone in our lives that appears smiling, someone that let us crying, and even we try to forget, there is always someone that becomes forever… that’s life, that’s love, ” a game you play, you win only to lose”. That’s why I’m righting down this to you right now, because I really want you to search for your ideals, your believes, even crying for that little big believe that one day you promise me smiling.

You know, some times I look at you on the class on that quiet days that you been passing troth, and I don’t see any believe, some times you look so sad!! Why?? Is it me, are you thinking about? I’ll never understand you! Because you are you, and that you, really mean something for my you…

But can’t you expect everything falling from de sky!! Could you? I guess that would put to much faith one a miracle!!…

There is one thing about you, that I’ll always keep with me, your way!! Did I ever tell you about that? You see things different!! You can make little insignificant moments, became forever, changing the way we used to see… and that’s amazing about you… Just like that day I was crying because my dog was dead, and you came around, I was ashamed of crying in front of you, and you told me “Why are you ashamed of crying for something it deserves to cry for…” I´ll never forgot that day that ends with me smiling at you…

Well, after all of this, I also know that we wont be able to talk for some time, we really learn something together. I’d really like to have you as a friend, but really, there is no way we can be friends! I guess, I’ll just have to wait until we meet again. I hope this is not a god bye!! See you around some day, ok? Bye

Juliana G ”

Acabou assim, e eu não parei de ler pra correr atrás dela, desisti da mesma maneira que ela.

“…When morning awakes me

Well I know I’ll be alone

And I feel I’ll be fine

So don’t you worry about me

I’m not empty on my own

For inside I’m alive…”

One Night
The Corrs
From CD - In Blue

O Giulliano eu só fui ver na Formatura deles, no final do ano, não nos víamos há quase um ano, eu liguei pra ele às vezes, ele também, mas nunca chegamos a nos encontrar nesse tempo. Como eu disse, com o tempo e a distancia, o que sentimos vai se esvaecendo, as vezes eu acho que o tempo esfria tudo… como um fogo que vai se apagando, eu não lembrava mais de sentir nada por ele, mas foi preciso uma olhadinha na formatura que, nossa!! Voltou tudo. Tudo aconteceu na quadra do antigo Fernando Pessoa, meu, foi uma surpresa, vi toda minha turma em cima do palco, todos de terno e gravata, cheguei, sentei na primeira fila, ao lado da mãe do Giulliano, ela me abraçou, disse que eu tinha sumido!! Disse também que eu devia estar lá em cima com eles. Foi ai que aconteceu algo muito legal, a Aline, oradora da turma, quando me viu chegando parou e disse: “Gente, O Bruno!! Cara. Essa formatura é sua também… afinal, não é um ano que vai separar agente né!!! Todos começaram a zoar!! Disseram, que sem o relações publicas da turma tava foda de sair mais cedo da aula. Me fizeram subir no palco, foi assim, eu me formei antes de completar o segundo grau. Nem acredito que a Aline teve coragem de me chamar, não era nada combinado, foi espontâneo. Depois do banho de champanhe era a festa que ia acontecer numa casa de um amigo na Granja Viana, era uma casa desocupada dentre as outras também da família dele, eu pedi o carro pra minha mãe, ela tava tão feliz de ver o quão unidos e legais meus amigos eram, que se empolgou, nem reclamou em emprestar, ela me disse que o que eu tinha com eles era algo pra vida… O Giulliano teria que voltar com mãe, não queria que ela voltasse sozinha. Eu disse “Ué, porque você não vai na festa!! Eu te sigo, agente deixa sua mãe e você vem comigo, depois te levo em casa quando acabar.” A mãe dele, me olhou: “Você não tem carta moleque!!” mas topou. Fui seguindo eles na estrada, vendo o Giu naquela peruinha Passion 306 da Peugeot, tinha tudo haver com eles, ele ficava parecendo um gringuinho, muito gatinho. Chegando lá, entramos um pouco, a casa dele era linda, toda de madeira em estilo rústico, parecia uma fazenda antiga na decoração, em tudo, tinha um clima incrível de tranqüilidade, ele foi no banheiro, trocou de sapato e fomos no carro da minha mãe, conversamos muito, perguntei de meninas, ele desconversou, falamos mais de faculdade essas coisas, futuro. Na festa foi demais, muita bebida, eu nem bebi muito, tinham alguns professores, o Sandro do cabelo azul, breaco, deu um puta fora animal, sorte que ninguém viu e que foi comigo, se não ele podia ter acabado com a carreira dele ali mesmo, ele era gay cara, não que alguém desconfiasse, eu desconfiava porque ele dava umas olhadas “diferentes” pra mim e pra os outros meninos, e também você sabe, quem curte também saca no ar, cobra conhece cobra como diz um amigo gay meu, hehe, bom, mas fui ter certeza mesmo naquela formatura, eu fui cumprimentar ele, que tava completamente alcoolizado, atolou a mão na minha bunda e já foi dizendo:”sabia que sempre te achei um tesãozinho!!” HAHAHAHA, meu, eu gelei!! Sai pra lá, ele era muito feio coitado, mas mesmo que fosse lindo, num rola, ainda bem que ninguém viu, sai discretamente de perto dele, muito sem graça, olhando pros lados procurando algum sinal de alarde, mas ufa, ninguém viu mesmo…

O Chelão, um outro amigão meu, tava com uma namorada e a irmã dela, que eu nem lembro o nome cara!! não consigo lembrar!! Hehe Ela ficou dando bola, era mais velha uns 22 acho, da idade do meu irmão mais velho, fazia facul de desenho industrial, acabei ficando com ela!! Mas me arrependi, não tinha nada haver, ela era fresca., beijava mau, mas era bonita pelo menos, sei lá, acho que devia ter passado mais tempo com o Giulliano. Nem sei porque fiquei com ela, acho que porquê sabia que a Juliana iria beijar alguém na viagem dela, então quis dar o troco antes, ainda me importava na época.

Devia ser umas 5h da manhã quando a menina lá foi embora, o Chelão também, o Giulliano se aproximou de mim e veio dizendo “Gatinha ela!! Beija bem?” Eu olhei pra ele, querendo saber se ele beijava bem, ainda lancei uma: “O que é beijar bem pra você?” Ele não soube responder, sabe, eu acho que ele nunca tinha ficado com uma menina cara, ficou envergonhado, fomos embora. No caminho de volta, só eu e ele no carro, lembro até que estava tocando um dos Cds da minha mãe, era Joe Cocker ao vivo, uma musica muito loca que dizia “You are so beatiful”, mó clima, mas eu não tinha coragem. Chegamos na frente da casa dele, ele me mostrou ainda de dentro do carro a caminhonete nova que o irmão dele tinha ganhado, uma Toyota Hilux 4×4, ele sabia que eu sempre curti carros, por isso me mostrou, mas ele em particular nunca ligou muito pra essas coisas não. Na hora de sair, ele me deu um abraço!! Foi demais, eu passei a mão nas costas dele, com o maior carinho, ele olhou bem pra mim, e disse “não some ta!! falow”, com aquela vozinha de moleque!! aquele jeitinho inesquecível!! eu nem falei nada, tava nas nuvens. Ele entrou, fui embora, lembro de ter ficado olhando para onde ele tinha sentado, pensando, tentando imagina-lo ainda lá. Nunca mais o vi, nunca mais cara. O que eu sinto a respeito disso, sei lá, o tempo levou embora todos os meus sentimentos dessa época, hoje, acho que é só mais uma história pra contar, ao ar livre, debaixo de um céu estrelado…

“…You are so beautiful.
To me.
You are so beautiful.
To me.
Can’t you see.

You’re everything I hope for.
You’re everything I need.
You are so beautiful to me.
You are so beautiful to me…”

You Are So Beautiful
Joe Cocher

Continua…


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